Facebook se irrita comigo. Só escreve para me cobrar presença e dizer que tenho notificações pendentes. Será que ele não sabe ainda que sou muito mais adepta da vida real???
Escrito por Priscila Monteiro às 23h05
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Poetas são chatos: não vão a churrascos. Preferem analisar regências verbais. Não raro bebem cerveja, mas somente para alimentar melancolia. E autocomiseração, claro.
Escrito por Priscila Monteiro às 22h19
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Do aquário
Há pouco tempo, quando minha mãe perguntava porque eu sempre me esquecia de dar comida aos peixes do aquário, eu respondia que eles, diferentes do gato e das cadelas, jamais pediam, nunca me reclamavam. Eu interpretava aquele silêncio como satisfação, por isso meu esquecimento. Precisando cumprir com mais frequência a tarefa, fiz certo esforço por lembrar da existência dos peixes: todos sempre lá, presos à parede, nadando no espaço delimitado por entre os vidros, comendo cocô alheio por diversão, apostando alguma corrida e simulando caçadas para evitar o tédio. Continuei a achar suas existências bestas, inúteis. Peixes cativos de agropecuária, domesticados. Um dia, o colorido do cardume conseguiu chamar minha atenção. Apreciei-o por algum momento, mas segui desatenta. Noutra vez, ao passar mais perto do aquário, ouvi um "tec" contra o vidro. Não identifiquei o autor, mas ele estava lá dentro, parecendo querer interagir. Foi quando parei. olhei a todos com atenção. Tão bonitos! Quase compreendi o apreço de minha mãe em tratar-lhes a água. alguns com cauda esfarrapada, barbatana transparente, outros sem rabo, com bocas compridas e curtas, uns de centímetros e outros minúsculos. E como pareciam sofrer... Os vidros encardidos de verde, a comida que nem sempre vinha, o longe de casa... Apertou-me o coração. Resolvi dar-lhes um pouco a mais de comida, para compensar. Lembrei de uma pergunta minha de infância: "Mãe, quando a gente morre vai pro lixo, que nem os peixes?" (que na época iam para o lixo de casa) e sorri. Passei a oferecer-lhes mais cuidado. Curiosamente, no dia em que parei para percebê-los, me revi também no aquário que ajudei a construir: vi meu reflexo também preso naquele lugar. Foi quando notei que meu silêncio de menina e mulher calada e o sentir-me fora do habitat têm procedência astral: nasci pisciana.
Escrito por Priscila Monteiro às 21h48
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De Chirico - ângulo (Iberê Camargo, Porto Alegre)

Escrito por Priscila Monteiro às 22h44
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horizonte Belo - recorte

Escrito por Priscila Monteiro às 13h36
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O guarda sem porquê
Era uma vez um guarda sem porquê. Era um guarda que não guardava nada, mas como ele não sabia disso, guardava noite e dia vários nadas para ninguéns. Achava que guardava ordem e respeito e, por isso, guardou nadas durante muito tempo. E cresceu, teve filhos e reclamava em agonia do som alto, do som baixo, da saia curta, da barba longa, de pata de gato, pé de mesa, pingo de goteira, pouca grana, muitos dentes, da gastura das horas, da virada do tempo e dos meninos correndo. Para ele, tudo devia estar em seu lugar certo, não valia nem ó nem mais ó. - É a lei, eu já sei que tenho razão. Nem venha com argumentação! Só de uma coisa ele nunca reclamava: do imenso silêncio que se instalava quando ele chegava. Ele achava que quietude era ordem e que manter a ordem era vital. E guardava noite e dia por uma coisa que ninguém pedia. - Eu sou pago para guardar! - dizia o guarda, e ia guardando o nada para ninguém ou coisa alguma. Foi quando num dia, viu um filho seu armado de pedra na mão e rabujando contra bico de passarinho: - Fique quieto, pássaro chato! - mandou com uma pedrada. O guarda reagiu dizendo: - Não faça isso, pequeno! Onde foi que você aprendeu tamanha atrocidade? Não sabe que matar é a maior das barbaridades? - Mas, papai, não foi o senhor quem dizia que o silêncio mais valia que a mais linda cantoria? Foi quando ele percebeu: deixou tudo em ordem porque era mais fácil, porque não precisava pensar! Mas veja o que o filho pensara: o pai estava a ensinar a imposição de calar! Percebeu que estava em um silêncio, em que ele mesmo se metia, que ninguém palavra lhe dizia. - Não há neste mundo, meu filho, nada mais belo do que a bagunça em sua harmonia - e a ordem da vida era o som e sua alegria; a ordem das coisas nada mais era do que uma tola fantasia. O guarda não viu mais porquê em guardar o nada que guardava. Ele percebeu um segredo: que o silêncio da lei não era paz, nem respeito: o que o guarda guardava mesmo era MEDO. A desordem pareceu-lhe linda, coisa muito afinada, e o menino-filho, que também era ele mesmo, um pequeno monstro. "E se eu quiser fazer agora tudo o que não fiz no começo? Será que consigo?, dou conta?, tem jeito?" E decidiu pensar nisso mais, não: cuidar de alguéns e não de nadas, deixar a vida do jeito que fosse: sem ordem, sem jeito, sem fórmula. E viu que para isso precisaria bagunçar tudo o que tinha guardado antes e decidiu especializar-se em barulho. Hoje é um grande moleque, arteiro como ele só! Papel branco não pára nunca: pinta e dança que nem um filó! E o menino que ele foi no passado: coitado dele, que dó! Viu que guardar tudo era nada, deixou tudo sem ponto, sem nó!
Escrito por Priscila Monteiro às 00h06
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Lançamento "Trocando histórias"
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Escrito por Priscila Monteiro às 12h44
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Me advertiram antes que eu viesse: – Não vais virar mineira! Mas não teve jeito, a mudança aconteceu. Agora não me sinto mais gaúcha: virei brasileira.
Escrito por Priscila Monteiro às 15h42
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Letra liberta
E seu eu lanço um livro, me livro? Livro, não. Livro, sim. As ideias não me livram sossego algum.
Não me livro de ti. E por quê? Não sei me sentir livre, por isso não me livro. A palavra não precisa de surporte algum.
Eu, não livro. Livre, libre, libro, livro... Não-livro. Eu, não-livro.
Escrito por Priscila O. M. Monteiro às 23h49
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Lagoa da Pampulha: rastros criptônicos

Feliz de ti, que podes voar sem pagar em 4x !
Escrito por Priscila O. M. Monteiro às 23h53
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Medo (2009)
Me bate à porta um autoconhecimento latente, implorando para ser explorado. Mas minha timidez e insegurança colocam trancas e giram a chave, enquanto respondo negligente: "Não tem ninguém. Passe amanhã". E amanhã ele passa outra vez. Vem disfarçado de mendigo, aluno, colega, letra de música, parente e dor de cabeça. E eu digo outra vez que não há ninguém, enquanto me encolho no canto do quarto, embaixo das cobertas, com os olhos doendo de tão apertados e com a respiração arfante de quem enfrentou um grande desafio.
Escrito por Priscila O. M. Monteiro às 23h10
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Da série gástrica (2008)
Sinto um nojo, um asco desmedido. O ácido me sobe, esquenta a garganta e chega na boca, espumoso. O gosto é do meu almoço, às vezes de algo que nem sei o que é. O líquido quente e pastoso me faz salivar. Reúno forças e engulo (de novo) todo aquele pedaço de digestão mal feita. Suplico para que não volte, mas aí está o maldito outra vez. O veneno que me dilacera as entranhas, que me atordoa os sentidos. A batalha prossegue. Sinto o estômago se esfarelar e vejo meu corpo se dissolver pelo ralo do banheiro. Se eu soubesse como me ajudar, com certeza o faria. A verdade é que paraliso sem olhar para mim ou para ninguém. Estanco na encruzilhada. Fico insossa, insípida e exalando vômito pelos poros. Às vezes penso não ser uma boa companhia...
Escrito por Priscila O. M. Monteiro às 23h00
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A escrita não tem me procurado mais e nem eu a ela. Não brigamos, não houve nenhuma decisão brutal sobre nossa relação; simplesmente nos afastamos sem um porquê. Acho que se tivesse tido briga, tudo entre nós poderia estar melhor. Faríamos as pazes em deliciosa lua de mel ou romperíamos para o nunca mais (ou quem sabe para um talvez futuro). Mas não há nada. Somente suspensão. E silêncio. E se eu recolho as palavras, saibas perdoar-me: é que escolho o que dizer-te, para o nosso reencontro.
Escrito por Priscila O. M. Monteiro às 17h50
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CURTAS QUADRAS
Te fiz versos de mansinho, minha mulher amada, Demonstrei meu carinho e não me deste nada.
Insisti em rimas, me fiz poeta, artista plástico, guia turístico, compositor. Mas me enquadraste sem dó: para teus olhos celestes e campos de trigo, sou um amigo, um nó, ponto hipotético descabido.
Ave, prenda brunita!, voaste para a ilha, partiste para lá. Fiquei cá profundissimamente em minhas minas gerais.
Sigo à distância suportando virtuais errâncias. Do teu corpo, casa e curvas adoradas, me sinto sempre perto, a poucos passos, a curtas quadras.
Escrito por Priscila O. M. Monteiro às 17h42
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Alice disse lá no seu país que não há lugar como nosso lar. Outros em outros lugares também já disseram que lar é onde o coração está. Eu, aqui neste outro canto do mapa, me pergunto: lar existe? Ele ocupa um espaço físico? É um estado de espírito?, são outras pessoas, seres vivos, objetos, lugares? Atualmente, arrisco dizer que, nesta pós-modernidade onde até a saudade é coisa virtual, lar é onde o meu computador está. Mas será?
Escrito por Priscila O. M. Monteiro às 17h26
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